Montenegro

Demétrius

Sobre o artista

Demetrius Montenegro é um artista plástico autodidata, brasileiro. Nasceu no dia 14 de novembro de 1979 no município de Nova Cruz, região agreste do estado do Rio Grande do Norte. Suas obras são apresentadas como um documento de suas experiências vividas em seu local de origem, em diferentes etapas de sua vida, mostrando-nos de forma bastante mágica e fantástica as cores e a realidade cultural de Nova Cruz.

No entanto, foi no litoral potiguar, na Praia da Pipa - Tibau do Sul, que as pinturas de Montenegro tornaram-se visíveis ao público. Em 2010 abre seu próprio ateliê e galeria no turístico vilarejo, onde recebe visitação de apreciadores de arte de diversas partes do mundo, quanto de alunos das escolas da região, com o intuito de promover e divulgar o pensamento artístico potiguar.

Desde então, Montenegro divide sua vivência artística entre litoral e agreste potiguar. No ano de 2013, Montenegro é premiado pelo Troféu Cultura, em sua décima edição no estado do Rio Grande do Norte como artista no ano de 2012. Nesse mesmo período, o artista começou a desenvolver oficinas de artes plásticas para crianças e adolescentes, abordando aspectos de seus costumes, tradições, o folclore e a importância das cores do agreste potiguar.

Com base em tais experiências, no final do ano de 2014, o artista inaugura o Centro Cultural Montenegro em Nova Cruz, cujo espaço o artista desenvolve suas pinturas e promove cursos de várias modalidades artísticas para os habitantes da região, como forma de democratizar, preservar e desenvolver a arte e a esfera cultural no local onde originou as cores, formas e temas de sua arte. Antes de adotar a técnica em acrílico, o artista fez diversos experimentos com folhas, terra, urucum, entre outros elementos.

Demétrius Entrega do prêmio Artista do Ano
Demétrius Vernissage dos alunos
Demonstração para estudantes no Espaço Montenegro - Nova Cruz Demonstração para estudantes no Espaço Montenegro - Nova Cruz
Exposição permanente na Galeria - Praia da Pipa Exposição permanente na Galeria - Praia da Pipa

Sobre as obras

Sob uma perspectiva psicanalítica da arte, o artista é definido como aquele que consegue fantasiar significados reprimidos e inconscientes de experiências socialmente vivênciadas, ou seja, a produção artística é uma atividade de expressão sublimada de nossos desejos que não encontrou um espaço na realidade social. Tal perspectiva poderia explicar, de maneira análoga, as razões pelas quais Montenegro sentiu-se motivado a pintar. É um artista autodidata, não partiu de referências dos cânones da historiografia da arte, sua técnica é a intuição, sua experiência sensível do cotidiano. Começou a pintar aos 16 anos, configurando temas intimistas que refletiam suas inquietudes com o universo que o circundava.

Com base em tais experimentações em sua juventude, o artista desenvolveu um “estilo” próprio, uma estética bastante peculiar sobre seu meio. Doravante, suas pinturas começaram abordar cenas da vida cotidiana, dos costumes do agreste potiguar: as festas, o trabalho, os alimentos, a fauna, a flora, os artefatos, a infância, a religiosidade, as lendas populares, a decadência social, o cangaço; em um momento em que o sertão ainda não era tocado por influências da sociedade industrial. A maneira "não-acadêmica" como Montenegro elabora suas pinturas é uma espécie de "arte primitiva do realismo fantástico". Primitiva, porque assim como os artistas naïf ou da arte primitiva moderna, o artista não teve uma formação acadêmica em artes. Notamos este aspecto na simplicidade e ausência de elementos formais da arte tradicional.

Todavia, por trás dessa inocência ou ingenuidade há uma obscenidade de um inconsciente social que é profundamente importante para a configuração de um pensamento político, social e cultural. E realista fantástica porque suas pinturas asistêmicas que retratam aspectos de sua cultura, são apresentadas de forma "irreal", isto é, para além da simple realidade culturalmente compartilhada. Porém, a produção artística de Montenegro não se restringe à temática regionalista, o artista busca, mutuamente, um diálogo entre temas universais por meio de uma forma estética do agreste e sertão potiguar.

No idioma tupi “potiguar” significa “comedor de camarão”, o adjetivo para quem nasce no estado do Rio Grande do Norte.

Demétrius

O município de Nova Cruz, lugar onde parte as temáticas de Montenegro, esta localizado na zona do agreste potiguar, que é uma faixa de transição entre o interior seco e a Mata Atlântica (úmida). Logo após esta faixa de transição, encontramos o sertão nordestino, caracterizado pelo seu clima semiárido (quente e seco) e por sua baixa pluviosidade.

Cenário que também encontramos retratado nas pinturas do artista, onde nasceram e foram criados seus familiares. O bioma predominante na região é a caatinga - mata branca -, um tipo de vegetação exclusivamente brasileira, composta por plantas resistentes aos largos períodos de estiagem nas regiões semiáridas.

O nordeste brasileiro é uma das regiões mais subdesenvolvidas do território brasileiro. A região semiárida mantém, todavia, problemas sociais históricos como: a grande concentração de renda e de terras; a pouca diversidade de cultivo agrícola e atividade industrial.

Além dos problemas sociais históricos, temos também na região o fenômeno natural das secas constantes: o gado morre e as plantações ficam comprometidas. Somado tais fatores históricos e naturais temos como resultado: a miséria, a fome, o trabalho infantil e submisso as autoridades locais.

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Demétrius

As cores da terra

«Sou do agreste potiguar...zona de transição entre sertão e o litoral. Terra dos Tapuias, onde nasce a macambira e afloram magníficos cajueiros, onde o azul é permanente e o carcará reina soberano! Terra das mais belas noites e seus mistérios...»

E com base nessa sua narrativa que Montenegro configura as cores do agreste potiguar na sua pintura: cores do dia de sol, dos alimentos da região, da terra e da cor da pele da herança indígena potiguar.

Em suas obras nos deparamos com artefatos em cenas que compõem o cotidiano nordestino, como: a rede que acompanha o descanso após a refeição ou após um dia de trabalho; o barro, um componente muito importante na construção de casas e também nos utensílios domésticos; as vestimentas em couro para o trabalho pesado e o tecido chita.

A chita é um tecido de algodão com estampas de cores fortes primárias e secundárias que são geralmente florais e tramas simples. A forma como é configurada as estampas, além de embelezar o tecido, serve também para disfarças as imperfeições, irregularidade e eventuais degradações do tecido. A chita é um elemento que faz parte da cultura folclórica brasileira.

Demétrius Boca da Noite (60cm x 80cm). 2011. Acrílica sobre tela.
Feito Gado (100cm x 150cm). 2011. Acrílica sobre tela. Feito Gado (100cm x 150cm). 2011. Acrílica sobre tela.
Das Arábias (100cm x 150cm). 2012. Acrílica e cera sobre tela. Das Arábias (100cm x 150cm). 2012. Acrílica e cera sobre tela.
Obra: Malícia Mística Malícia Mística.
O Judas da 13 de Maio (60cm x 90cm). 2012. Acrílica sobre tela. O Judas da 13 de Maio (60cm x 90cm). 2012. Acrílica sobre tela.
Bazar da Providência (150cm x 150cm). 2013. Acrílica sobre tela. Bazar da Providência (150cm x 150cm). 2013. Acrílica sobre tela.

A religiosidade

As obras de Montenegro abordam também as manifestações tradicionais da religião predominante em sua região: o catolicismo sincretizado pelas culturas européias e africana.

A "queimação de Judas" na Semana Santa, a procissão do dia de Nossa Senhora da Aparecida, padroeira do Brasil, celebrada no dia 12 de outubro, são rituais bastante cultuados nas pequenas cidades de agreste.

A Folia de Reis, uma festa católica de origem espanhola, que celebra a visita dos três Reis Magos ao Cristo no dia 06 de janeiro, isto é, logo depois do seu nascimento.

O dia 2 de fevereiro é o dia do orixá feminino Iemanjá, divindade africana das religiões Candomblé e Umbanda. É uma espécie de padroeira dos pescadores, segundo a mitologia, ela é quem decide “o destino daqueles que entram no mar”.

As providências ou ex-voto suscepto ("o voto realizado"), são pinturas ou estatuetas de variados objetos doados às divindades como forma de agradecimento por um pedido atendido, que pode ser: cura de doenças, recuperação de sofrimentos amorosos, acidentes ou problemas financeiros.

É uma manifestação artístico-religiosa que se liga diretamente à arte religiosa e à arte popular que encontramos em todas as épocas e culturas, representada em pequenas réplicas de barro e de madeira das partes do corpo afetadas por moléstias, assim como vemos na obra de Montenegro: perna, cabeça, mão, coração, entre outros, que representam os pedidos do artista.

É Dia de Reis (60cm x 80cm). 2012. Acrílica sobre tela. É Dia de Reis (60cm x 80cm). 2012. Acrílica sobre tela.
2 de Fevereiro (100cm x 120cm). 2013. Acrílica sobre tela. 2 de Fevereiro (100cm x 120cm). 2013. Acrílica sobre tela.

O ritmo do sertão

O ritmo e dança bastante típica do nordeste brasileiro é o forró, criado a partir de instrumentos como: a sanfona, o triângulo e a zabumba. O forró acompanha todos os tipos de celebrações, inclusive, os matrimônios no sertão.

Obra: O Casamento da Moreninha O Casamento da Moreninha (110cm x 300cm). 2013. Acrílica sobre tela.
Forró no Quilombo (100cm x 160cm). 2014. Acrílica sobre tela. Forró no Quilombo (100cm x 160cm). 2014. Acrílica sobre tela.
Noite de Baião (80cm x 100cm). 2011. Acrílica sobre tela. Noite de Baião (80cm x 100cm). 2011. Acrílica sobre tela.
2008. Acrílica sobre tela. 2008. Acrílica sobre tela.
Fosquinho

O circo chegou

Os circos que chegavam até o sertão possuíam escassos recursos para seus espetáculos mas, mesmo assim, representavam um grande acontecimento no cotidiano de seus habitantes.

Montenegro busca captar toda a magia que o circo produzia por trás de toda essa esfera decadente em que se encontravam. O "palhaço do sertão" é caracterizado pelo seu chapéu de couro usado, frequentemente, pelos vagueiros do semiárido.

A caatinga

A vestimenta dos vagueiros do sertão é feita de couro para protege-los dos espinhos ao cavalgar pela vegetação semiárida.

A esfera fantástica

Além de apresentar temas regionais por meio de um estilo «primitivista», as pinturas de Montenegro abordam também a realidade por meio de aspectos fantasísticos. Podemos pensar a pintura do artista potiguar como uma «arte primitiva do realismo fantástico», na medida em que transforma aspectos comuns do cotidiano, dos costumes populares em uma vivência que inclui experiências sobrenaturais ou fantásticas. E tais conteúdos mágicos são percebidos como parte de uma certa "normalidade" pelos seus personagens. O artista usa elementos mágicos oriundos de sua intuição que não remete a nenhum significado ou explicação objetiva para tais acontecimentos.

Mesmo «quando a luz se apaga», o artista é afetado por suas intuições, pelo saldo de presencia em suas vivências cotidianas e, com isso, surgem seus processos de criação.

Girassóis (100cm x 120cm). 2012. Acrílica sobre tela. Girassóis (100cm x 120cm). 2012. Acrílica sobre tela.
Quando a Luz se Apaga (60cm x 80cm). 2013. Acrílica sobre tela. Quando a Luz se Apaga (60cm x 80cm). 2013. Acrílica sobre tela.
Mundo de Borobodá (120cm x 150cm). 2013. Acrílica sobre tela. Mundo de Borobodá (120cm x 150cm). 2013. Acrílica sobre tela.
Rio dos Ventos (220cm x 130cm). 2013. Acrílica sobre tela. Rio dos Ventos (220cm x 130cm). 2013. Acrílica sobre tela.
O Sedutor (80cm x 90cm). 2014. Acrílica sobre tela. O Sedutor (80cm x 90cm). 2014. Acrílica sobre tela.

Algumas releituras

O artista também dedicou sua pintura em releituras de personagens da literatura, da mitologia universal, da historiografia brasileira.

Na “pasta ao molho de camarão”, o artista simboliza um possivel cruzamento entre as culturas italiana e potiguar. Podemos pensar tais pinturas de Montenegro como uma espécie de “antropofagia do sertão”.

O cangaço foi um movimento social que surgiu no princípio do século passado no sertão nordestino. Estava relacionado diretamente com problemas acerca da concentração de terra, o coronelismo e a desigualdade social.

Os cangaceiros vagueavam pelos sertões, saqueando as casas dos fazendeiros para doar aos que viviam uma situação de miséria, praticavam uma espécie de "bantidismo social".

A obra Eis! retrata de forma bastante lúdica o assassinato a exposição da cabeça de Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião, de sua companheira Maria Bonita e seu bando em um confronto com autoridades do sertão entre os estados da Bahia e Sergipe. A exposição das cabeças dos cangaceiros capturados e assassinados era uma prova de lealdade com as autoridades locais.

Potiguar! Capisci? (100cm x 120cm). 2013. Acrílica sobre tela. Potiguar! Capisci? (100cm x 120cm). 2013. Acrílica sobre tela.
Eis! (70cm x 120cm). 2013. Acrílica sobre tela. Eis! (70cm x 120cm). 2013. Acrílica sobre tela.
Hamlet (100cm x 120cm). 2012. Acrílica sobre tela. Hamlet (100cm x 120cm). 2012. Acrílica sobre tela.
Rasga-mortalhas (100cm x 120cm). 2013. Acrílica sobre tela. Rasga-mortalhas (100cm x 120cm). 2013. Acrílica sobre tela.

Mitos e folclores

Encontramos no agreste e sertão potiguar diversos mitos e lendas que fazem parte do folclore brasileiro. Montenegro busca tematizá-los em suas obras, mostrando-nos a fantasia, o inconsciente social que guia sua cultura. Como por exemplo, a coruja rasga-mortalha que, segundo a lenda, produz um som que anuncia a morte ou a tragédia pessoal ou de algum ente próximo.

A carranca, uma escultura produzida em madeira que pode ter uma forma humana ou animal, utilizada a princípio nas proas das embarcações que navegavam pelo Rio São Francisco como forma de proteção contra os “maus espíritos”. O Rio São Francisco é a via natural de entrada ao sertão, foi um grande responsável pela formação das cidades na região semiárida devido às trocas entre litoral e o sertão.

A lenda do Boitata, o protetor das matas, é um personagem do folclore brasileiro, citado pela primeira vez em um texto do Padre José de Anchieta em meados do século XVI. No idioma tupi “boi” significa “cobra” e “tata” “fogo”. Boitatá é uma grande cobra de fogo que persegue aqueles que tentam fazer algum mal ás matas e florestas. A crença em tal lenda permanece até hoje na cultura nordestina.

A lenda do Boitatá (110cm x 300cm). 2014. Acrílica sobre tela. A lenda do Boitatá (110cm x 300cm). 2014. Acrílica sobre tela.

A boneca Abayomi é uma herança cultural africana para o Brasil surgida no contexto da vinda dos escravos africanos. Segundo a lenda, durante a viagem de travessia do Atlântico, as crianças choravam assustadas ao presenciar o dor e o desespero de seus familiares. Para acalmar as crianças as mães rasgavam tiras de pano de suas saias e faziam bonecas com estes retalhos para as crianças brincarem. Abayomi no dialeto africano significa “aquilo que traz alegria e felicidade”. Montenegro nos mostra como esse ato das mães africanas influenciou nossa cultura, configurando uma releitura da lenda por meio de uma estética típica das bonecas de sua região, que também eram confeccionadas por tiras das roupas das mães.

Abayomi (100cm x 150cm). 2014. Acrílica sobre tela. Abayomi (100cm x 150cm). 2014. Acrílica sobre tela.
Noite do Fogaréu (120cm x 150cm). 2014. Acrílica sobre tela. Noite do Fogaréu (120cm x 150cm). 2014. Acrílica sobre tela.

Além de tematizar estes personagens das lendas que fazem parte do folclore brasileiro, Montenegro também nos apresenta seus próprios seres fantásticos.

Em suas recentes obras, Montenegro se afasta um pouco da temática do agreste e sertão e cria outros estilos, outras formas de representação estética que simbolizam novas vivências, outras percepções e leituras de seu meio.

Texto: Ana Carolina Nunes Silva (Mestra em Estética e Filosofia da Arte)

Carrancas do Azul Profundo (100cm x 120cm). 2014. Acrílica sobre tela. Carrancas do Azul Profundo (100cm x 120cm). 2014. Acrílica sobre tela.
Sem título. 2015. Acrílica sobre tela. Sem título. 2015. Acrílica sobre tela.
Totem (60cm x 150cm). 2014. Acrílica sobre tela. Totem (60cm x 150cm). 2014. Acrílica sobre tela.
A Dama da Noite (100cm x 120cm). 2015. Acrílica sobre tela. A Dama da Noite (100cm x 120cm). 2015. Acrílica sobre tela.
Homem Azul. 2014. Acrílica sobre papel. Homem Azul. 2014. Acrílica sobre papel.
Ex-mágico (90cm x 120cm). 2015. Acrílica sobre tela. Ex-mágico (90cm x 120cm). 2015. Acrílica sobre tela.